O momento de reconstrução da Seleção masculina não significa, para Nalbert, que o país esteja distante das principais forças do vôlei mundial. O campeão olímpico não vê uma equipe dominante e acredita que o Brasil pode voltar a brigar por títulos nos próximos anos.
– Vou fazer uma análise diferente da que tenho escutado. Concordo que hoje há mais times, que o Brasil está em construção e precisa de jogadores rodados, mas não vejo bichos-papões no vôlei mundial. Discordo da ideia de que o nível está lá em cima. Não tem um timaço. O Brasil, nos próximos dois anos, trazendo jogadores, trabalhando melhor, fazendo com que o time jogue mais, pode brigar – comentou Nalbert em entrevista ao quadro “Abre Aspas”, do “ge”.
Para ele, a Seleção precisa aproveitar o período de reconstrução para integrar jogadores experientes, trabalhar mais tempo em conjunto e melhorar as decisões individuais dos atletas, como ter menos foco em aparelhos celulares.
– O grupo tem que aproveitar todos os dias de treinamento, se fechar, tomar melhores decisões individuais de carreira. A Superliga tem bom nível, mas fica muito atrás de ligas europeias, por causa do dinheiro. Os jogadores precisam ter a consciência de que só vão construir um time forte estando conectados entre si, vencendo a barreira da insegurança, da pressão, da internet. Tem que saber diferenciar a crítica construtiva do comentário oportunista. Hoje em dia, ter um psicólogo nos times também é importante. O celular pode estragar a vida de qualquer pessoa – acrescentou Nalbert, hoje aos 52 anos.
DE OLHO NA BASE
A principal preocupação de Nalbert, porém, está nas categorias de base. Ele afirmou que os problemas atuais da Seleção adulta não podem ser dissociados da formação dos jogadores e disse que alerta para essa situação há pelo menos dez anos. Ele criticou a estrutura administrativa e argumentou que federações e confederações precisam ser comandadas por profissionais mais qualificados.
– O sistema esportivo no Brasil, com as federações, é extremamente político. Preza mais pelas relações do que pela competência. Quem comanda, em muitos casos, não é um gestor qualificado. Vemos isso dentro da CBV, de qualquer confederação, de federações estaduais. Essa cadeia precisa funcionar. Hoje em dia, todo mundo fala da base, por causa dos resultados ruins do adulto. Mas, nos tempos de vitória do Brasil, eu já falava que estávamos perdendo na base. Não fui engenheiro de obra pronta. Estou avisando há, no mínimo, 10 anos. Precisamos de gestores, gente competente para cuidar dessa cadeia e formar melhor os jogadores – reclamou Nalbert.
Campeão mundial sub-17 e sub-20 e sul-americano sub-17, Nalbert chegou ao adulto após uma trajetória vitoriosa nas categorias inferiores. Para ele, a mentalidade construída naquela época foi fundamental para o sucesso da Seleção.
– Passei invicto nas categorias de base para chegar no adulto e perder durante muito tempo. Mas a mentalidade vencedora da base estava ali, e pude liderar um novo time para ganhar no adulto – pontuou.
Nalbert também citou o trabalho atual de Bernardinho e Zé Roberto Guimarães na reorganização do voleibol brasileiro. No entanto, questionou por que mudanças desse tipo não foram feitas anteriormente e atribuiu parte da responsabilidade à gestão da CBV.
– Eles estão arrumando a casa, cuidando de tudo. Por que isso não ocorreu antes? Falha de gestão. Não tem como fugir. Quem é a entidade máxima do vôlei brasileiro? É a CBV. Eles têm essa obrigação, essa responsabilidade de cuidar o tempo inteiro. “Ah, não tem dinheiro, não tem recurso”. Há 35 anos, tinha mais dinheiro do que agora? Vôlei é o segundo esporte do Brasil, temos vários grandes patrocínios. Será que o dinheiro não está sendo colocado da forma errada? Será que não é a formação errada de treinadores e técnicos? Essa reflexão deveria existir há muito tempo – questionou.
CORTE EM PEQUIM-2008
Por fim, ele revisitou um dos momentos mais difíceis de sua carreira: o corte da Seleção que disputou os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.
– Foi doloroso, fiquei um bom tempo chateado, magoado. Depois, o tempo passa, a vida segue, e a gente entende. Nós nos cruzamos algumas vezes depois do corte, mas não falamos a respeito disso. A vida seguiu. Eu nunca criei expectativa de nada, as coisas se resolvem com o tempo…Eu não esperava aquilo. Para mim está tudo resolvido. Os jogadores que disputavam posição comigo tinham características diferentes. Eu me via em Pequim. Eu era o cara mais experiente, mais velho, que, diante dos EUA na final, podia dar um volume, um toque aqui e ali. Tomaram essa decisão, e faz parte do jogo. Não quero carregar mágoa eterna de ninguém – concluiu.
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