quinta-feira, agosto 13, 2026 13:41

‘Diferente de tudo que eu já havia visto’: jornalista conta como foi viagem em avião abandonado por Trump

Trump confirma voo secreto para escapar de ameaça iraniana
Desde o início, havia algo que não fazia sentido.
Durante as horas finais da Cúpula de Líderes da Otan, em Ancara, em julho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou na rede Truth Social que não voltaria para casa a bordo do novo avião presidencial que o havia levado à capital turca. A aeronave havia sido entregue ao governo americano pelo Catar no ano passado.
Em vez disso, Trump disse que havia enviado o avião antecipadamente para a Base Aérea de Mildenhall, na Inglaterra, para que militares pudessem visitá-lo.
Ele escreveu, sem explicar como voltaria a Washington, que viajaria até Mildenhall a bordo de um Air Force One mais antigo.
Como parte da equipe de imprensa que acompanhava Trump, eu estava nessa viagem.
O presidente Donald Trump embarca no Air Force One em 2 de agosto de 2026
Daniel Heuer/Reuters
A mudança no itinerário era confusa, e a explicação de Trump parecia pouco plausível. As perguntas entre os jornalistas passaram a girar em torno da possibilidade de o Irã ter elaborado um plano concreto para assassinar o presidente.
No início, nosso itinerário exato também era um mistério. Mas presumimos que ainda seguiríamos para Washington, como planejado originalmente, depois da parada no Reino Unido.
Se nossa suspeita inicial sobre uma questão de segurança estivesse correta, o avião fornecido pelo Catar — que não conta com alguns recursos de segurança — poderia não ser considerado adequado.
Isso explicaria por que a Casa Branca teria decidido trocar as aeronaves. Também significaria que enfrentaríamos um voo muito mais perigoso do que o habitual.
Trump havia alimentado, sem querer, especulações sobre possíveis ameaças durante o último dia da cúpula, em 8 de julho.
Ao se reunir com diferentes líderes mundiais, como o presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, e o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, Trump mencionou repetidamente, em comentários a jornalistas, as tentativas de longa data do Irã de matá-lo.
Em uma entrevista coletiva pouco antes de deixar a Turquia, Trump evitou responder diretamente às perguntas sobre a troca de avião. A sensação de que havia algo fora do normal aumentou.
Quando embarcamos no que acreditávamos ser a aeronave que levaria o presidente, funcionários da Casa Branca orientaram os jornalistas a fechar as persianas das janelas.
Quando insistimos em saber o motivo, disseram que era um pedido do Serviço Secreto.
Eu já havia viajado no avião presidencial e sabia que aquela exigência não era comum.
Seria uma tentativa de esconder algum tipo de tecnologia de defesa classificada?
Só semanas depois descobriríamos que a instrução fazia parte de uma operação secreta. Trump deixou a aeronave por um caminhão de serviço de alimentação e embarcou em outro avião do governo por causa de uma preocupação de segurança.
A bordo do Air Force One, as respostas podem ser surpreendentemente difíceis de obter.
Por razões de segurança, os jornalistas não têm acesso ao Wi-Fi. O contato com funcionários da Casa Branca, por sua vez, costuma ser limitado a um funcionário responsável pela logística, conhecido como “wrangler”, que muitas vezes não tem acesso nem autorização para divulgar informações sensíveis.
O voo de Ancara para Mildenhall transcorreu sem incidentes, embora fosse difícil relaxar.
Acreditávamos, erroneamente, que o presidente poderia aparecer a qualquer momento. As circunstâncias da viagem continuavam sendo um mistério.
Trump não fez o tradicional encontro informal com os jornalistas, algo que agora sabemos ter sido proposital. Naquele momento, porém, não dei muita importância à ausência, já que ele frequentemente deixa de falar com a imprensa a bordo do Air Force One.
Mas, quando pousamos na Inglaterra no fim da noite, a viagem tomou outro rumo incomum.
Ao sair do avião, vimos Trump descer por outra parte da aeronave. Em retrospecto, era uma parte elaborada da encenação.
Em seguida, funcionários da Casa Branca nos pediram para acompanhar Trump a pé enquanto ele caminhava até o Air Force One fornecido pelo Catar, estacionado a algumas centenas de metros do avião do qual tínhamos acabado de sair.
Agentes do Serviço Secreto cercavam o presidente, enquanto um SUV preto do governo avançava lentamente à nossa direita.
A manobra — diferente de tudo que eu já havia visto na cobertura da Casa Branca — imediatamente me pareceu bastante teatral e cinematográfica, especialmente porque eu não sabia qual era seu propósito.
Depois de embarcarmos no novo avião e decolarmos, um funcionário da Casa Branca entregou aos jornalistas uma cópia impressa de uma publicação de Trump na Truth Social.
A imagem mostrava militares e suas famílias reunidos diante do avião fornecido pelo Catar.
Na publicação, Trump afirmou que a “base inteira” havia pedido para conhecer a aeronave e que a parada em Mildenhall exigia “praticamente nenhum desvio” da rota habitual entre Ancara e Washington.
Momentos depois, o presidente visitou a área destinada à imprensa. Nós o enchemos de perguntas sobre os verdadeiros motivos pelos quais ele não havia levado o avião fornecido pelo Catar até a Inglaterra.
Só um mês depois ficaria claro que Trump não havia viajado conosco até Mildenhall e que havia uma terceira aeronave envolvida.
Durante o voo, ele negou que questões de segurança tivessem influenciado a decisão.
Mas, quando perguntei por que precisávamos manter as persianas das janelas fechadas, ele reconheceu as ameaças constantes que sofria do Irã.
“Mas se eu for, vocês vão também, certo?”, disse Trump. “Talvez algum dia vocês queiram mudar de profissão.”

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