segunda-feira, julho 6, 2026 20:54

Brasil vai aos EUA tentar barrar tarifaço de Trump; veja os argumentos da indústria e do agro

Brasil responde a relatório dos Estados Unidos e contesta tarifa de 25%
Começam nesta segunda-feira (6) as audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), etapa considerada decisiva na investigação comercial americana que propõe uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.
As audiências fazem parte do processo, baseado na Seção 301 da legislação comercial americana, e permitem que empresas, associações, governos e outras partes interessadas apresentem seus argumentos antes da decisão final dos Estados Unidos. (saiba mais sobre as audiências)
🔎 O USTR é órgão é responsável por formular a política comercial dos Estados Unidos. Também conduz investigações sobre práticas consideradas prejudiciais ao comércio americano e pode recomendar medidas como a imposição de tarifas.
Representantes da indústria e do agronegócio brasileiros estarão entre os participantes. Eles pretendem convencer o governo americano de que a sobretaxa prejudicaria não apenas exportadores brasileiros, mas também empresas, consumidores e cadeias produtivas dos EUA.
Entre os participantes estão a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), além de representantes dos setores de café, arroz, açúcar, etanol de milho, ferro-gusa, rochas ornamentais, madeira, papel, calçados, mel e propriedade intelectual.
Enquanto isso, equipes técnicas dos governos dos dois países devem se reunir ainda nesta semana para alinhar os preparativos de uma última rodada de negociações de alto nível antes de 15 de julho, prazo em que Washington decidirá se avança com a imposição das tarifas.
A defesa da indústria brasileira
A estratégia da indústria brasileira é mostrar que as economias dos dois países são fortemente integradas e que a tarifa também elevaria custos para empresas americanas.
▶️ Indústria de transformação
A Fiesp, que representa as indústrias paulistas, defenderá que a tarifa de 25% não tem justificativa técnica nem econômica e pode prejudicar empresas e consumidores de ambos os países.
Em São Paulo, os segmentos mais expostos são justamente os de maior valor agregado, como máquinas e equipamentos, autopeças, alimentos industrializados, madeira, móveis e outros produtos manufaturados.
Segundo estimativas da CNI, caso a medida seja adotada:
31,6% das exportações brasileiras para os Estados Unidos passarão a pagar tarifa total de 37,5% (soma dos 25% da investigação comercial com outros 12,5% de outra acusação americana, de “falha no combate ao trabalho forçado” no país);
35,2% de toda a pauta exportadora brasileira para o mercado americano será atingida pela nova sobretaxa;
Somadas às tarifas já existentes da Seção 232, 54,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos ficarão sujeitas a algum tipo de tarifa adicional.
Durante a audiência, a entidade também pretende rebater quatro pontos da investigação dos EUA:
Propriedade intelectual: defenderá que o Brasil reduziu o estoque de patentes no INPI, reforçou o combate à pirataria e ampliou ações de fiscalização;
Tarifas de importação: afirmará que os acordos comerciais brasileiros têm alcance limitado e que cerca de metade das importações vindas dos EUA já entra no país com tarifa zero ou reduzida por regimes especiais;
Desmatamento: argumentará que o crescimento da produção agrícola decorre principalmente de ganhos de produtividade e tecnologia, e não da expansão sobre áreas de floresta;
Relação bilateral: defenderá maior integração comercial e cooperação técnica entre Brasil e Estados Unidos, em vez da criação de novas barreiras.
Fiesp: ‘Tarifa não faz sentido econômico’
Roberto Azevêdo, Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp
Divulgação
O presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Azevêdo, afirmou ao g1 que a entidade pretende demonstrar que as acusações feitas pelo USTR não se sustentam.
“A prática brasileira não é discriminatória, não é desleal nem ilegal do ponto de vista das regras internacionais do comércio, e não prejudica as empresas americanas”, diz Azevêdo.
Na investigação, o governo americano questiona os acordos comerciais do Brasil com países como México e Índia, alegando que eles concedem tarifas preferenciais a produtos de setores específicos.
O governo brasileiro rebate, afirmando que esses acordos são legítimos, seguem as regras da OMC e não podem ser considerados prática passível de sanções comerciais.
Azevêdo, que também é ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), ressalta que a tarifa proposta também não produzirá os efeitos pretendidos pelos EUA.
“Essa tarifa não faz sentido do ponto de vista econômico. Ela não vai resolver os problemas apontados pelo USTR. Pelo contrário, vai aumentar os custos das cadeias produtivas no Brasil e nos Estados Unidos, elevar os preços para o consumidor e prejudicar as empresas dos dois países.”
Segundo Azevêdo, o caminho passa por ampliar a negociação entre os governos. “O governo brasileiro poderia ser ainda mais proativo e criativo na busca de soluções. Negociar não é entreguismo nem perder soberania. É buscar ganhos recíprocos para os dois lados.”
O Brasil encaminhou, na quarta-feira (1º), uma resposta aos EUA sobre a investigação aberta pelo governo Donald Trump.
No documento, assinado pelo chanceler Mauro Vieira, o Brasil afirma que as críticas do governo americano ao Pix e a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) não têm relação com comércio, mas com divergências sobre políticas internas.
Roberto Azevêdo afirma que, embora a defesa técnica apresentada pelo Brasil seja consistente, a solução depende de articulação política. “Não basta apresentar argumentos jurídicos, é necessário que as instâncias políticas estejam constantemente envolvidas para buscar uma solução”.
CNI defende diálogo para evitar prejuízos aos dois países
Complexo Industrial e Portuário do Pecém
Divulgação/CNI
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) defenderá, durante a audiência, que a tarifa adicional de 25% não tem justificativa jurídica, econômica ou estratégica e pode prejudicar empresas brasileiras e americanas.
Em entrevista ao g1, a gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, Constanza Negri, afirmou que não há evidências de que empresas americanas sejam discriminadas no Brasil.
“Na nossa perspectiva, fica claro que essas medidas não têm justificativa em nenhum dos três planos: jurídico, econômico ou estratégico”, afirmou.
Segundo ela, a relação comercial entre os dois países é complementar e a sobretaxa elevaria custos para toda a cadeia produtiva.
“Qualquer medida que encareça ou crie barreiras para essa relação trará prejuízos não apenas para o Brasil, mas também para os Estados Unidos”, disse.
A executiva também afirmou que a indústria defende a priorização das negociações entre os governos e alertou que a principal preocupação do setor é a incerteza gerada pelas mudanças sucessivas na política comercial dos EUA.
“O setor privado vem sofrendo não apenas pela queda das exportações, mas também pela grande imprevisibilidade. As empresas não sabem a qual tarifa estarão sujeitas”, afirmou.
▶️ Máquinas e equipamentos
Divulgação
Os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) pedirá a exclusão do setor de uma eventual tarifa adicional de 25%, argumentando que a relação comercial entre Brasil e EUA é baseada em cadeias produtivas integradas, e não em concorrência direta.
Os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos e concentram cerca de um quarto das vendas externas do setor. Em 2025, no entanto, as tarifas impostas pelo governo americano levaram a uma queda de mais de 9% nessas exportações.
🛺 Além da tarifa global de 10% em vigor desde fevereiro de 2026, parte dos produtos também está sujeita às tarifas da Seção 232, aplicadas ao aço e ao alumínio. Antes de todo o tarifaço, a maior parte das máquinas brasileiras entrava no mercado americano com taxa zero.
A principal linha de defesa da Abimaq será mostrar que uma sobretaxação também prejudicaria a indústria americana.
Segundo a entidade, 82% das exportações brasileiras de máquinas para os Estados Unidos ocorrem entre empresas do mesmo grupo econômico, como uma matriz americana e sua filial no Brasil.
Para a Abimaq, isso mostra que as cadeias produtivas dos dois países são altamente integradas e que uma sobretaxa elevaria os custos da própria indústria americana, que depende desses componentes e equipamentos.
Ao g1, a diretora de Comércio Exterior da Abimaq, Patrícia Gomes, afirmou que muitos equipamentos são desenvolvidos sob encomenda, passam por processos de certificação e exigem relacionamento de longo prazo entre fabricantes e clientes.
“É muito difícil substituir um fornecedor de máquinas e equipamentos. Estamos falando de projetos de médio e longo prazo, com equipamentos certificados e desenvolvidos em conjunto com os clientes.”
Segundo a executiva, uma ruptura nessas cadeias elevaria os custos da própria indústria americana e afetaria investimentos em setores estratégicos, como construção, logística, mineração, energia e transporte.
Apesar de defender a exclusão integral do setor, a Abimaq reconhece que o cenário ainda é incerto e considera mais provável a ampliação da lista de produtos isentos. (saiba mais)
“Nosso objetivo é buscar a exclusão do setor de máquinas e equipamentos. Mas, diante das incertezas, também trabalhamos para ampliar a lista de exceções caso as tarifas sejam mantidas.”
▶️ Siderurgia
O Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer), que representa as empresas produtoras de ferro-gusa no principal estado exportador do produto no país, pedirá a exclusão do ferro-gusa brasileiro da tarifa.
⚙️ O ferro-gusa é a matéria-prima usada na fabricação de aço e de peças de ferro fundido. O produto abastece siderúrgicas e fundições e é considerado um insumo essencial para diversos segmentos industriais.
A entidade afirma que o produto é essencial para siderúrgicas americanas, não tem relação com os temas investigados pelo USTR e é difícil de ser substituído.
Também destaca que cerca de 83% das exportações brasileiras de ferro-gusa têm como destino os EUA e que a produção nacional utiliza carvão vegetal de florestas plantadas, reduzindo emissões de carbono.
▶️ Agronegócio
Café solúvel está entre os produtos fora da lista de isenção e que podem ser taxados.
Consciência Café. – Divulgação.
No caso do agronegócio, três segmentos brasileiros — mel, café solúvel e pescados — participam das audiências nos Estados Unidos para tentar evitar a nova tarifa proposta por Trump.
A estratégia central é demonstrar que a medida pode pressionar preços ao consumidor, elevar a inflação e também afetar cadeias produtivas dentro da própria economia americana.
Na defesa do setor, participarão entidades como:
Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA);
Sociedade Rural Brasileira;
União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA);
Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz);
Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé);
Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS);
União Nacional do Etanol de Milho (UNEM);
Associação Brasileira dos Exportadores de Mel.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que representa mais de 5 milhões de produtores rurais, afirma que as tarifas prejudicam uma relação comercial considerada complementar entre os dois países.
Em manifestação enviada ao USTR, a entidade sustenta que os acordos comerciais brasileiros com países como México e Índia seguem as regras da OMC e não causam prejuízos aos Estados Unidos.
Segundo a CNA, esses acordos representam cerca de 1,9% das importações brasileiras, enquanto os Estados Unidos seguem como o segundo maior fornecedor do mercado brasileiro.
🔎 A CNA também contesta a associação entre o crescimento do agronegócio e o desmatamento ilegal, afirmando que o aumento da produção ocorreu principalmente por ganhos de produtividade e inovação tecnológica. Como exemplo, cita que, entre 2005 e 2026, a produção de grãos cresceu 213%, enquanto o desmatamento na Amazônia caiu 79%.
Como alternativa às tarifas, a entidade defendeu o fortalecimento da cooperação bilateral em áreas como agricultura sustentável, biocombustíveis e facilitação do comércio, destacando também a dependência da agropecuária brasileira de insumos importados dos Estados Unidos.

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