quinta-feira, julho 23, 2026 03:23

O ‘plano Trump’: como empresas brasileiras tentam driblar o tarifaço e reduzir a dependência dos EUA

Na Casa Branca, Lula e Donald Trump discutem terras raras, crime organizado e comércio
Jornal Nacional/ Reprodução
As tarifas de 25% recentemente anunciadas pelos Estados Unidos contra o Brasil têm levado empresas brasileiras a buscar alternativas ao mercado americano.
Uma estimativa recente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicou que cerca de 18% das exportações brasileiras para os EUA devem ser afetadas pelo novo tarifaço, o equivalente a US$ 7,4 bilhões (R$ 37,7 bilhões).
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Para representantes de diferentes setores da economia ouvidos pelo g1, porém, diversificar mercados leva tempo, exige investimentos e não evita os impactos imediatos sobre exportações, empregos e faturamento.
Além disso, empresários defendem uma redução da carga tributária e medidas para conter o avanço das importações, ampliando o espaço da indústria nacional no mercado interno como forma de amenizar os efeitos do tarifaço.
Agora no g1
Busca por novos mercados esbarra em custos e concorrência global
O vaivém das tarifas americanas tem provocado uma enorme instabilidade para os setores exportadores desde o ano passado. Veja a cronologia das tarifas.
Segundo o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, muitas empresas que ainda tinham fôlego financeiro no ano passado conseguiram negociar com seus importadores e dividir o custo da tarifa adicional.
“Mas essa estratégia começou a ficar mais difícil neste ano com a nova rodada de tarifas”, afirma.
Setores afetados pelas novas tarifas estão se reunindo com representantes do governo para apresentar as principais demandas de cada segmento e discutir medidas de apoio.
Ainda assim, alguns demonstram preocupação com os efeitos financeiros das novas tarifas e defendem que a negociação diplomática para reduzir ou retirar a alíquota continua sendo a melhor alternativa.
É o caso, por exemplo, do setor moveleiro. Segundo Cândida Cervieri, diretora-executiva da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), cerca de 30% das exportações do segmento têm como destino os EUA.
“Já enfrentamos um impacto muito grande em polos industriais de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais, que registraram uma forte onda de demissões”, afirma a executiva, reiterando a estimativa de cerca de 10 mil desligamentos desde o ano passado.
Cervieri ressalta que, embora as empresas estejam buscando novos mercados, essa estratégia leva tempo para produzir resultados.
“Existe todo um processo de construção de confiança entre parceiros comerciais, e cada mercado tem características próprias. Além disso, o mundo inteiro está lidando com as tarifas impostas por Trump e buscando novos mercados, o que aumenta a concorrência global”, completa.
Sapatos em uma linha de produção na fabricante brasileira de calçados Kissol, em meio à imposição de novas tarifas americanas sobre diversos produtos brasileiros, incluindo a indústria calçadista, que tem os EUA como seu principal mercado externo.
Joel Silva/Reuters
O que a indústria pede ao governo para enfrentar o tarifaço
Representantes da indústria destacam a importância de manter o diálogo diplomático com o governo americano e com interlocutores brasileiros que atuam nos EUA.
Essa discussão também envolve a eventual aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao governo brasileiro adotar medidas de resposta contra países ou blocos econômicos que imponham barreiras comerciais, legais ou políticas ao Brasil.
“Precisamos manter as portas abertas para o diálogo e seguir negociando. É preciso reconhecer que a política comercial dos EUA é injusta, mas é o cenário atual. Precisamos encontrar pontos de convergência para buscar uma solução favorável para os dois lados”, afirma o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel.
Além das negociações, diversos setores da economia já apresentaram propostas ao governo para fortalecer a indústria brasileira diante das novas tarifas.
Na terça-feira, por exemplo, o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, reuniu-se com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, para discutir medidas emergenciais voltadas à preservação da competitividade das exportações brasileiras.
Entre outros pontos, o setor propôs:
o fortalecimento do Reintegra, programa que devolve às exportadoras parte dos tributos pagos ao longo da cadeia produtiva;
um crédito-prêmio à exportação, que geraria créditos tributários para compensar impostos; e
a adoção de um regime especial de diferimento de tributos federais, permitindo que empresas tenham mais prazo para pagar impostos.
“Outro desafio que discutimos com o governo é a adoção de medidas complementares que utilizem os instrumentos já previstos na legislação para conter o avanço das importações”, diz Ferreira, da Abicalçados.
Segundo os executivos, o mercado interno, visto como uma alternativa para compensar parte das perdas nas exportações, enfrenta forte concorrência de produtos importados.
De acordo com Pimentel, da Abit, as importações cresceram neste ano, tanto no comércio tradicional, realizado por contêineres, quanto nas compras feitas por plataformas internacionais de comércio eletrônico, as chamadas pequenas encomendas.
“Temos de buscar uma internacionalização cada vez maior, mas também precisamos enfrentar o custo Brasil e outros fatores que ainda dificultam o crescimento das empresas nacionais. Precisamos encontrar um equilíbrio nesse processo”, conclui.
Entenda as novas tarifas anunciadas pelos EUA
Na semana passada, o governo americano confirmou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros após concluir uma investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês).
A medida, porém, conta com uma extensa lista de exceções. O governo brasileiro reagiu afirmando que a decisão não tem justificativa econômica e teria sido motivada por razões políticas. A tarifa entra em vigor nesta quarta-feira (22).
Além disso, na terça-feira (21), o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou, em entrevista à CNBC, que o governo americano deve anunciar novas tarifas para aproximadamente 60 países nos próximos dias.
Nesse caso, a alíquota adicional deve variar entre 10% e 12,5% e seria aplicada a países que, segundo o governo americano, falharam em proibir ou fiscalizar adequadamente a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

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