terça-feira, julho 7, 2026 11:22

Angela Grass celebra avanço feminino e avalia novas regras na VNL

A Liga das Nações (VNL) de 2026 não marca apenas o início dos testes de mudanças nas regras do vôlei. Para a árbitra internacional Angela Grass, a competição também simboliza um avanço importante fora das quatro linhas: o aumento da presença feminina na arbitragem e nas comissões técnicas.

Primeira mulher sul-americana a integrar o quadro de arbitragem de uma edição dos Jogos Olímpicos, em Paris 2024, a gaúcha acredita que o esporte finalmente começa a corrigir uma defasagem histórica.

– Para nós, tanto na comissão técnica quanto na arbitragem, foi um ganho absurdo. Antigamente a gente não se via nessas posições. As próprias atletas não nos viam podendo ser árbitras, técnicas ou integrantes de uma comissão técnica. A Federação Internacional começou a trabalhar isso com um ímpeto muito grande. Ainda não somos 50% da arbitragem mundial, mas houve avanços importantes. Estamos em 2026 e acho que essa conquista veio bem atrasada, mas, para nós, é melhor tarde do que nunca – analisou Angela Grass ao Web Vôlei.

Entre as medidas adotadas pela Federação Internacional (FIVB), Angela destacou a exigência de que cada equipe tenha ao menos uma mulher entre os seis integrantes da comissão técnica presentes no banco durante as partidas.

Apesar do avanço no cenário internacional, ela avalia que a realidade brasileira ainda muda em ritmo mais lento.

– Estou há 39 anos na arbitragem batalhando para formar outra mulher e, até agora, não consegui. Agora, trabalhando nas coordenações dos campeonatos brasileiros, tenho tentado dar apoio para elas, mostrar que é possível chegar lá. Quero deixar esse legado de ter outra mulher ocupando esses espaços. Daqui para frente eu já vou estar parando e preciso dessa representatividade feminina – disse a árbitra.

Da desconfiança à Olimpíada

Ao recordar o início da carreira, Angela lembra que precisou enfrentar a ideia de que arbitragem era um espaço reservado aos homens. Na época, ouviu que seu lugar seria na súmula, como apontadora, mas nunca cogitou seguir esse caminho.

– Quando comecei, em 1987, já existia aquela posição de que mulher seria apontadora, porque árbitro era homem. E eu disse lá atrás: ‘Não quero ser apontadora, eu quero ser árbitra’. Eu tinha certeza de que conquistaria tudo dentro da arbitragem – contou Angela.

Quase quatro décadas depois, veio a realização do maior objetivo da carreira. Em Paris-2024, Angela Grass se tornou a primeira mulher sul-americana a integrar o quadro de arbitragem de uma edição dos Jogos Olímpicos.

– Um dia eu queria apitar uma Olimpíada. Em 2024, conquistei justamente a única competição que ainda faltava na minha carreira. Para mim, foi a realização de um sonho em todas as etapas. É uma conquista gigantesca. Para mim, é só vitória – celebrou.

O reconhecimento recebido desde então também surpreende a árbitra.

– Ver o público me reconhecendo, tendo fãs no mundo do vôlei… Quando um árbitro imagina que vai ter fãs? Para mim, isso é o reconhecimento desse trabalho e dessa caminhada. É uma vitória – completou a árbitra.

Adaptação às novas regras

Além da representatividade, Angela também comentou a primeira competição internacional disputada sob as novas regras que estão sendo testadas pela FIVB. Entre as mudanças estão a possibilidade de a bola seguir em jogo após tocar o teto em situações específicas, uma interpretação mais rígida dos contatos de ataque, alterações nos desafios e maior uso da tecnologia.

Segundo ela, o maior desafio foi adaptar rapidamente a interpretação dos lances.

– A gente recebe a informação por escrito, participa de reuniões e analisa muitos vídeos. Esse acaba sendo o nosso treinamento. Era natural que algumas mudanças ainda não estivessem totalmente calibradas nestas primeiras semanas, principalmente nas interpretações sobre os contatos de ataque. Mas conseguimos manter um nível alto, considerando que ainda não tínhamos essa prática – disse Angela.

– Quando passa a depender mais de interpretação, é sempre o julgamento do árbitro que acaba sendo questionado. Mas fomos ajustando isso jogo após jogo, revendo os vídeos e buscando um equilíbrio. Os vídeos ajudam muito porque permitem analisar diferentes ângulos e entender se realmente houve ou não a infração – completou.

Tecnologia facilita o trabalho

Outra mudança que ganhou espaço nesta edição da VNL foi a ampliação do uso da tecnologia para auxiliar a arbitragem. Para Angela, os recursos eletrônicos tornaram o jogo mais justo, mesmo quando provocam pequenas interrupções.

– A tecnologia tornou o nosso trabalho mais fácil. Quantas bolas marcamos como tocadas quando não eram, ou demos como fora quando tinham sido tocadas? Ela veio para deixar o jogo mais equilibrado, com mais fair play – elogiou.

O auxílio da tecnologia (Reprodução Stefano Cesare/Instagram)

Ao mesmo tempo, ela lembra que a eficiência do sistema depende da estrutura disponível em cada sede.

– Dependemos da internet, da comunicação com o árbitro de vídeo. Às vezes é melhor atrasar um pouco o jogo e ter certeza da decisão do que decidir rápido e ser injusto com alguma equipe – acrescentou a profissional de arbitragem.

– Quando a tecnologia falha, nós continuamos sendo árbitros. Não deixamos de exercer nossa função. Apenas voltamos a trabalhar da forma como fazíamos antigamente.

A regra que mudaria

Questionada sobre qual regra alteraria caso tivesse essa possibilidade, Angela não hesitou ao apontar a invasão por baixo da rede.

– Muitas vezes o levantador, naquela corridinha, passa um pouco com o pé por baixo da rede e precisamos marcar a falta, mesmo depois de uma jogada espetacular. Por outro lado, o atleta pode passar praticamente o corpo inteiro para a quadra adversária e, se não houver interferência, nada acontece. Acho que a regra deveria seguir essa mesma lógica e a falta só deveria ser marcada quando realmente houvesse interferência na jogada – argumentou a árbitra.

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